Negra Fora Do Padrão


Sim! Chegou a minha vez!  Após anos usando química no cabelo, resolvi me dar o direito de conhecer a minha estrutura capilar. E posso afirmar que foi mais que um simples corte de cabelo. Ao contrário, foi um reencontro com marcas do passado que me fizeram chorar .


Antes de tudo quero deixar claro que este texto é apenas um relato pessoal. Na contramão de muitos pensamentos que considero radicais, se você, assim como eu fez ou ainda faz uso de química nos cabelos, isso não vai fazer de você uma pessoa menos negra. Cada um deve levar a vida forma que quer.


VERGONHA DESDE A INFÂNCIA

Como a maioria das crianças negras da década de 80, era muito comum usarmos tranças, afinal, as empresas de cosméticos não investiam nos cabelos crespos, a não ser com produtos que tinham a missão de alisar os considerados cabelos duros. Sim, você não leu errado, nossos cabelos eram considerados duros. E infelizmente essa “cultura” está tão inserida na sociedade que ainda ouve-se esta expressão.  Eu mesma, há dois anos, pouco tempo antes de passar pelo famoso big chop (grande corte), falei que “meu cabelo era duro, logo não ficaria legal sem química”.

Mas voltando à infância, eu sempre fui uma menina muito alegre. Mas por trás daquela alegria havia uma tristeza que me corroía. Dizia para a minha mãe que eu não queria ser mais negra. Afinal de contas, já estava cansada de ser alvo de piadas de mau gosto por conta da cor da minha pele e, principalmente, por conta dos meus cabelos.  Já fui alvo de críticas até mesmo de uma professora que ameaçou cortar minhas tranças em sala de aula.  Neste caso ela se deu mal, por que quando minha mãe descobriu foi à escola com uma tesoura e disse à professora que se ela não cortasse o meu cabelo, o  dela (liso que batia na cintura), que seria cortado.

Para cessar a dor que me corrompia, minha mãe me dava pulseiras e brincos de ouro, mas nada disso faziam meus olhos brilharem.  Eu queria é deixar de ser alvo dos meus colegas. Foi aí que minha mãe me levou ao salão para alisar o meu cabelo. Pronto! Durante o período escolar meu cabelo já não estava mais duro. Agora com o cabelo alisado eu poderia molhar ele todos os dias assim como a maioria das meninas da minha sala fazia. Mero engano.  Com química a estrutura do cabelo muda e não se podia lavar os cabelos todos os dias por que isso o faria enfraquecer ainda mais. Logo a queda era certa. E foi assim que aconteceu comigo quando eu já estava no ginásio. Foi aí que veio o meu 1º big chop.  

Voltei a estaca zero. As humilhações voltaram a acontecer. Lembro-me de quando estava na 6ª série e Juliana, a loira de cabelos lisos que estudava na mesma escola que eu, fazia questão de quando me visse tentar passar o pente fino que ela usava facilmente em seus cabelos, nos meus, só para me constranger. Doía muito ser alvo de críticas.

Já na fase adulta, passei a usar mega hair. Não me conformava em ter meu cabelo duro. Afinal de contas, várias foram as vezes que chorei por ser FDP – FORA DO PADRÃO! Gente! Já fui alvo de piada de ex-namorado por causa do meu cabelo. Como assim? E o pior que eu gostava dele. É mole?

Em 2004, conheci meu esposo. Inclusive hoje completamos 14 anos de relacionamento, sendo cinco de casados. Alisson tinha um posicionamento muito diferente do meu. Ele tinha orgulho de ser negro. Conhecia a nossa cultura de cabo a rabo. E nunca, em tempo algum, me criticou se eu estivesse com o meu cabelo alisado ou com mega hair.  Para o nosso casamento fiz meu maior investimento: paguei R$2.000,00 em um cabelo cacheado 100% brasileiro (aquele que nunca passou por química). Não me arrependo! Eu estava linda!

A GRANDE MUDANÇA

Já com três anos de casada, conheci as meninas do Clube De Blogueiras Negras de BH. Lá pude conhecer de perto mulheres negras, com diferentes tipos de textura capilar. Aprendi muito com elas. Na verdade elas vieram para agregar aquilo que o Alisson já estava fazendo. Principalmente por me fazer ver que não seria o meu cabelo que me faria mais ou menos negra.

Em maio de 2016 estava desempregada e logo não teria mais como pagar para relaxar (sim, com o passar do tempo a nomenclatura mudou), o meu cabelo. Resolvi fazer o teste da trança. Gostei! Mas ainda não era o que eu queria.  Passei a sonhar com uma gravidez em que eu estivesse com o cabelo totalmente Black Power. Foi quando falei com Alisson: “- vou tirar as tranças e você pode cortar tudo. Não quer mais nada liso”. Chorei... lembrei-me de toda a minha infância...  adolescência... da Juliana... de tudo e todos. Mas ele, o meu marido dizia que eu estava linda. E era nele que eu preferi acreditar.

Um ano e meio depois, 19 de novembro de 2017, descubro que estou grávida. Lembrei-me do meu sonho, de estar grávida com o cabelo grande. Porém para cima! E assim foi. Hoje com a minha bebê nos braços, celebro um ano da descoberta da gravidez, 14 anos de relacionamento e a felicidade de me livrar de um passado que só me fez mal.

Se um dia eu quiser alisar, relaxar, cortar ou trançar o meu cabelo, isso não me fará menos negra que as demais mulheres. Eu tenho que me sentir bem. Cheguei a escová-lo, para ver o que sentia, mas confesso que senti falta do volumão. E não pense você que cabelo black fede ou é mais fácil de tratar. Não mesmo! Nós somos asseados e as marcas já perceberam que não investir no nosso tipo de cabelo é ficar fora do mercado.

Hoje quero que minha filha quando crescer conheça o próprio valor e enquanto puder ela vai usar cabelo natural. E se um dia quiser usar química não a impedirei. O importante é que ela tenha consciência, por meio dos meus ensinamentos que não existe cabelo duro.


Ah! E sobre minha mãe me dar brincos de ouro quando eu chorava não querendo ser negra, não a julgo. Mesmo por que a cultura do cabelo duro se deu por conta da pressão da sociedade que até hoje dos julgam FDP.


6 comentários:

  1. Adorei o texto falou tudo aquilo que nós de cabelos cacheados ou crespos passamos. Nosso cabelo não é duro e sim tem a estrutura capilar diferente.

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  2. Lembrei so tempo da escola... Por meu cabelo ser pequeno, seco e com pilho, minha mae me mandava de coque pra aula. E os apelidos mais carinhosos que eu recebia eram: negra do cabelo duro (ate ate cantavam a música assim) e maria homem... Mas tudo passa! Hoje eu sou muito bem resolvida com meus cachos e feliz por tê-los assim.

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    1. Minha amiga, o melhor disso tudo é o aprendizado! Para criarmos nossos filhos mais fortes do que fomos.

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  3. Adorei o seu texto. Todos nós temos insatisfações com nós mesmos, devemos cuidar para que isso não seja um problema.

    Fui gordo a minha vida adulta toda, e isso sempre me incomodou. Malhava e tal, mas com a cerveja tava lá o barrigão. Até que um dia me vi com câncer de garganta: saí de 110 kg para 68 em pouco mais de um mês.

    Hoje me mantenho com 76, e não vou deixar passar dos 80, já que houve essa "sequela boa". Mas preferia ter continuado gordinho ao passar pelo que passei.

    "Cuidado com o que vc pede em suas orações: você pode conseguir."

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    1. Uau!!! Que relato. Um pouco antes de parar de andar, eu pedia a Deus para me dar experiências com ele. E assim foi! Fui vítima de erro médico e parei de andar. Daí aprendi: cuidado com o que pedes... rsrsr

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